EntreteniMente: Documentário Holocausto Brasileiro
EntreteniMente psicofobia

EntreteniMente: Documentário Holocausto Brasileiro

A tragédia que ocorreu em um manicômio estado de Minas ainda é escondida pelo silêncio. Muitas pessoas nunca ouviram falar. Em 2016, essa história foi trazida à tona pelo documentário Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, autora de livro homônimo que inspirou o filme.

Foram 60 mil mortes e milhares de abusos com pessoas que tinham sua humanidade confiscada ao serem consideradas “loucas”.

Isso aconteceu no Hospital Colônia, na cidade de Barbacena. O hospital abriu em 1903 e funciona até hoje, mas o período de maior horror foi de 1930 até 1980. Lá, foram internados homens e mulheres, adultos e crianças.

Com capacidade para 200 leitos, já chegou a contar com 5 mil internos ao mesmo tempo. Estima-se que 70% dessas pessoas não tinham diagnóstico de doença mental.

O hospício era um depósito para as pessoas não desejadas pela sociedade, como prostitutas, alcoólatras, moradores de rua, homossexuais, mulheres que perderam a virgindade antes do casamento, crianças rejeitadas pela família por possuírem deficiência.

Silvio Savat, fotografado em 1979, confundido com um cadáver por estar coberto de moscas. Entretanto, ele sobreviveu e hoje vive em uma residência terapêutica em Belo Horizonte. Foto: Napoleão Coelho.

Por que “Holocausto Brasileiro”?

O livro e posteriormente o documentário receberam críticas pelo nome chocante que remete ao genocídio realizado pelos Nazistas na Alemanha. Porém, o título é justificado por alguns paralelos que podemos estabelecer entre as duas tragédias:

Assim como os judeus, os “pacientes” chegavam em vagões de carga lotados, para serem internados contra sua vontade. Eles eram amontoados sem condições de higiene, recebiam alimentação precária, eram torturados com procedimentos como o eletrochoque sem uso de anestésico e muitos eram mortos.

O hospital chegou a vender corpos para faculdades de medicina e lucrar com a venda de ossadas de pacientes. Tudo isso ocorrendo durante a Ditadura Militar e sendo protegido por um estado e por familiares omissos.

Em 1979, o Colônia recebeu a visita de Franco Basaglia, um psiquiatra italiano que vinha trabalhando na reforma psiquiátrica de seu país. Ao ver a situação de Barbacena, ele afirmou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em nenhum lugar do mundo presenciei uma tragédia como essa”.

Os internos bebiam esgoto, vestiam-se com trapos ou andavam nus. Morriam de desnutrição. Nos períodos de maior lotação, chegavam a acontecer 16 mortes por dia.

livro holocausto brasileiro

Livro que inspirou o documentário. Clique aqui para saber mais.

Após isso, o hospital começou uma transformação na forma de lidar com os pacientes, buscando uma psiquiatria mais humana.  Embora lá as coisas estivessem ruins, já havia uma tendência mundial para uma reforma psiquiatra, como as realizadas pela doutora Nise da Silveira.

Até hoje existem uma luta constante pelo fim dos hospícios e do isolamento de pessoas com transtornos mentais. Dia 18 de maio é o Dia da Luta Antimanicomial, onde profissionais de saúde mental se juntam para lutar por essa causa.

O documentário

É fundamental que esse fato chegue ao conhecimento de mais pessoas. Contudo, o documentário é bem forte e é possível que contenha alguns gatilhos, devido à frequente menção ao abandono e às violências que aconteceram. Deve ser assistido com cautela.

Apesar, é um relato muito bom que investiga o triste acontecimento, o silêncio que o encobriu e debate uma pergunta que não quer calar: De quem é a culpa?

O documentário conta com depoimento de ex pacientes e de ex funcionários. Dando voz aos que foram calados e mostrando que muitas vezes, quem trabalhava lá não tinha noção da atrocidade que estava fazendo.

Vale a pena conferir.

É importante ressaltar que tamanha atrocidade só foi possível devido às noções de que doentes mentais eram perigosos e deveriam ser afastados da sociedade. Hoje, sabemos que a socialização é necessária para alcançar a recuperação do paciente, que nada vai evoluir trancafiado em uma prisão e sendo desumanizado.

Por isso, é muito importante continuarmos lutando pela conscientização e pelo fim dos manicômios. Todas as pessoas merecem uma vida digna, mesmo as que enfrentam doenças. Somos todos iguais, vamos nos juntar pelo fim do preconceito!

O Você não está sozinho é um blog sobre saúde mental e qualidade de vida que tem como uma meta combater a psicofobia. Se você apoia essa causa, nos acompanhe aqui, no canal ou nas redes sociais. Basta procurar por @vcnestasozinhx

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.