automutilação

Quando a dor alivia

aviso de gatilho (TW): automutilação

Já faz bastante tempo que estou tentando escrever sobre esse assunto, mas vem sendo muito mais difícil do que eu esperava. Automutilação: a ação de deliberadamente causar dano ao seu próprio corpo.

Parece inacreditável. O que leva alguém a se machucar de propósito? Teoricamente isso só estará piorando tudo, não é? Esse é outro tabu enorme que envolve a saúde mental.

Mas a automutilação não é raridade. Não se resume apenas em adolescentes de moletom preto cortando-se com lâminas de barbear. Não, na verdade embora seja comum nessa faixa etária, pode aparecer em qualquer outra, de diversos modos.

Não é uma fase, não é desejo de estar no centro das atenções. É um problema sério, que pode ser fatal. Contudo, também é algo meu, contra meu corpo. Interferir no meu direito de decidir o que fazer com ele também é complicado.

Desde que me coloquei para refletir sobre tudo que estava acontecendo comigo, percebi que a automutilação não está na ação de se cortar, queimar ou agredir. Ela começa muito antes, em um padrão de pensamento e auto-ódio que nos leva a acreditar que merecemos coisas ruins.

É por isso que existem infinitas formas de se automutilar. Cortes, queimaduras, arrancar os cabelos, interferir na cicatrização é automutilação. Mas ingerir muita comida, ou pouca comida também pode ser. Privar-se de sono ou de ter uma vida social, beber, fazer sexo, usar drogas…

Tudo isso pode ser automutilação. Depende da sua motivação, da forma como você se vê, no que você
pensa. Ela está presente no ódio que temos por nós mesmos, na competição, na culpa e no desejar ser igual a outro.

E aqueles que olham indignados, julgam e fazem piadas dos jovens que, perdidos em meio as mudanças da adolescência, apelam para os cortes, não conseguem enxergar que não tem nada a ver com má influência. É muito difícil compreender a automutilação.

Na verdade, isso é apenas a ponta do iceberg. Atrás desse comportamento, encontram-se doenças, traumas, medos, raiva e dor. Ferir a si mesmo surge como uma válvula de escape. Com tanta pressão, tanto sofrimento, todo mundo precisa de uma fuga.

Não ajuda a superar o problema. Mas momentaneamente alivia. É um modo de lidar com os sentimentos, uma forma de descontar a raiva, é fazer alguma coisa. E é um vício também, como toda fuga acaba se tornando. Você se machuca, dói. Porém consegue se distrair da dor emocional que sente e que não sabe como lidar.

Às vezes a raiva aumenta, às vezes você chora. Às vezes não parece significar mais nada. É apenas mais sangue, mais dor, mais cicatrizes, mais ódio… Mas você faz algo com toda aquela droga, com todo aquele cansaço que você não aguenta mais.

Você começa, geralmente com ferimentos superficiais. Com o tempo, isso piora, passa a acontecer mais vezes em um espaço menor de tempo, com ferimentos mais graves. Alivia um pouco. Seu cérebro tende a dar mais atenção à dor que no momento mais arrisca sua vida.

E então vai acontecendo, acontecendo e acontecendo até que já virou rotina. É uma válvula de escape. De repente é como você lida com tudo. Você se acostuma a sempre recorrer ao velho hábito de destruir a si mesmo quando algo acontece.

Por isso é tão difícil parar. Não adianta pedir que a pessoa pare e achar que vai dar certo. Também não adianta remover lâminas e objetos que ele possa usar para se machucar. A recuperação é justamente aprender a lidar de outra maneira, mesmo em situações que você teria todo o acesso a automutilação.

Além disso, a pessoa irá encontrar novas maneiras de se machucar enquanto tiver um padrão de pensamento que favoreça isso. A psicoterapia e até mesmo tratamentos médicos pode ajudar. Parar irá requerer um grande esforço, mas não será impossível.

Se você conhece alguém nessa situação, pare de julgar e busque entender. Demonstrar amor e cuidado, sem sufocar a pessoa, irá ajudar muito. Muitos dos que se automutilam tem dificuldades para se comunicar e ser aberto sobre seus sentimentos. Por isso, esteja com ela, deixe que ela desabafe e confie em você.

Se você passa por isso, procure ajuda. Converse com alguém de confiança. Entre em contato comigo se precisar. Você é incrível, eu acredito em você. Nunca se esqueça de que você merece uma vida boa. Procure se amar, faça um dia de cada vez… Um dia, chegaremos lá!

Para facilitar esse processo, veja algumas dicas sobre “Como parar de se machucar” aqui.

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“eu ainda acho você lindo(a)”

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